terça-feira, 11 de agosto de 2015

Por que “Guiné” é o nome de tantos países (e bichos, e coisas)?



Poucos termos causaram tanta confusão na História quanto o nome “Guiné” (em inglês: “Guinea“). Hoje usado para batizar 4 países diferentes (Guiné, Guiné-Bissau e Guiné Equatorial, na África, e Papua Nova Guiné, na Oceania), além de dois animais (guiné/galinha-d’angola e porco-da-guiné/porquinho-da-índia), o termo lusófono foi responsável por vários mal-entendidos que acabaram caindo na boca do povo e sobrevivem até hoje. Mas quais são as origens do nome e por que ele possui tantos usos diferentes?
Tudo começou com os portugueses, que, no século XV, usaram o termo para designar a costa Africana abaixo do Rio Senegal. As teorias sobre o que motivou o epíteto são diversas: povos do Norte da África usavam o nome como um termo racista para se referir a pessoas de pele negra; outra possibilidade é uma derivação de “Djenné”, nome de uma cidade às margens do Rio Níger que era rica em comércio; já uma terceira teoria é relacionada ao nome do reino medieval de Gana, que aos ouvidos dos lusitanos soava como guiné.

Nos séculos que se seguiram, qualquer país da costa oeste africana era Guiné, aos olhos dos europeus. Tinha Guiné alemã, francesa, portuguesa, sueca, dinamarquesa… Cada um com seu pedacinho na exploração da região, que era bastante rica em ouro. É daí que veio seu uso para batizar moedas britânicas de ouro expedidas entre 1663 e 1813. Um guiné valia o equivalente a 1 libra e 1 xelim na época.
Com o andar da História e o descobrimento de novos territórios, a confusão foi aumentando: quando o explorador espanhol Yñigo Ortiz de Retez atracou numa ilha ao norte da Austrália, em 1545, ele viu pessoas muito parecidas com os africanos da Guiné. Logo, o navegador tratou de batizar o lugar como “Nova Guiné”. Como se isso já não fosse racista o suficiente, o termo Papua, que completa o nome do território, teria se originado da palavra malaia “papuah”, que significa “frisado”, “enrolado”, em referência ao cabelo crespo dos nativos.

E tem mais: a confusão entre os nomes Guiné e Guiana teria dado origem ao nome “Guinea-Pig” (porquinho-da-índia, no Português). Os europeus supostamente se confundiram com a origem exata dos navios que traziam carregamentos do bicho. Mas essa está longe de ser a única hipótese  sobre o nome de um animalzinho que nem é porco, nem veio da da Guiné e muito menos é “da Índia”. A história fala de navios que, após saírem da América do Sul carregando alguns roedores, faziam uma parada pela costa africana para carregar escravos (na época chamados de homens da Guiné).

Porquinho? Eu?
Outra teoria é que o nome tenha vindo do preço de um roedor no mercado da época (exatamente 1 guiné). E, finalmente, para explicar o “Índia” no nome em português, a hipótese fala de exploradores espanhóis que chegaram ao Peru por engano quando buscavam um caminho para as Índias: eles se apaixonaram pelo bichinho, que, equivocadamente, pensavam ser originário da Índia.

A confusão que envolve a ave Guiné é ainda mais bizarra. Também chamada de galinha-d’angola aqui no Brasil, o galináceo de fato recebe esse nome por ser nativo da região oeste da África. Mas, quando a espécie chegou pela primeira vez à Europa, o nome usado foi “turkey” (traduzido como “peru” em português ao se referir a ave, e como “Turquia” ao se referir ao país). O motivo? Quem trazia o bicho para venda eram comerciantes turcos do império Otomano. Mais tarde, quando os ingleses chegaram a América do Norte e encontraram as aves que são de fato conhecidas hoje como “turkeys“, eles pensavam que, na verdade, estavam diante de várias “guinés”.
Quer mais? “Guiné” é uma gíria racial que foi usada na América do Norte para ofender ítalo-americanos dando a entender que eles não eram “brancos”, e é também o nome de uma localidade no estado da Virginia, nos Estados Unidos, colonizada por mercenários que eram pagos em moedas de “guiné”.
Ufa, acabou? Não. Temos mais um exemplo do magnífico uso da palavra guiné:

A inspiração veio de um tipo de capim comum na vegetação brasileira, apropriado para a alimentação do gado. É por isso que Raul Seixas foi tão enfático ao dizer que não planta capim-guiné para boi abanar o rabo. Agora, como a guiné chegou até o capim, a gente ainda não conseguiu descobrir.

É, acho melhor parar por aqui antes que nossos cérebros fritem ainda mais.
Fonte Super interessante

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